San Pedro de Atacama: o oásis dos backpackers


Uma cidade governada pelo amor à natureza e às estrelas.


Em San Pedro, há um mito popular: acredita-se que as elevadas quantidades de quartzo e cobre presentes no território despertam boas vibrações nos seus habitantes. Com ou sem cristais poderosos, não há dúvida que a energia aparente deste lugar é contagiante. Esta história começa na capital do Chile...



Travessia desde Santiago

Estávamos no aeroporto de Santiago, quando perdemos o avião para o norte do país. Foram 10 minutos de correria pelo aeroporto, seguidos de inglórios apelos à abertura de portas, arrependimentos vários, tremenda desorientação, até chegarmos a uma decisão indispensável. Teríamos de optar por fazer a viagem por terra, o que nos levaria a percorrer estradas inóspitas durante mais de 30 horas seguidas.

Fig. 1 - Travessia Santiago do Chile - Antofagasta - San Pedro de Atacama


Valeu-nos que o autocarro parecia um avião por dentro, com direito a pausa para café, refeições e bancos recostáveis. Assistimos a 4 sessões de cinema durante a viagem, que nos fizeram tanto chorar como rir. Entre os melhores filmes estavam o Espanhol “Toc Toc” e o chileno “Sin Filtro”. Chegámos a San Pedro de Atacama completamente revigoradas.



Primeiras impressões

A "cidade-vila" de San Pedro é um oásis no deserto, situado no epicentro de uma das regiões mais secas do planeta. Dá a sensação de entrarmos num filme do faroeste, com toda a sua aridez e mistério, mas sem cowboys. Tanto as estradas como as casas são cor de terra. O ambiente começa a ganhar mais vida quando chegamos à zona central da vila, onde param viajantes de todo o lado. Ali, outras cores se misturam: o rosa e azul forte do artesanato exposto, as vívidas placas de agências turísticas e uma ou outra árvore plantada.


De malas às costas e a precisar de esticar as pernas, chegámos a um hostel com a maior quantidade de camas sobrepostas que eu alguma vez tinha visto. Eu fiquei no quarto andar do beliche. Não existia nada de moderno dentro daquelas paredes, para além de wi-fi. Fomos passar a tarde no Valle de la Luna, uma travessia extraordinária que contarei mais tarde.


Andámos pela vila à procura do melhor negócio para fazer o melhor passeio do "bairro": atravessar o Deserto do Atacama até ao Salar de Uyuni. Já com a viagem comprada, improvisámos jantar na cozinha do hostel e seguimos para um bar onde se ouvia a tradicional Cumbia.


Fig. 2, 3, 4 - Bar/restaurante Barros no centro de San Pedro


Era um concerto ao vivo que articulava notas de guitarra elétrica com tambores e maracas. Estávamos rodeadas de sorrisos acolhedores, uma enorme barulheira, mesas de banquete, com cadeiras coladas umas às outras e grupos de backpackers a beber doses desmedidas de cerveja. Fui-me esforçando para apreciar a música, enquanto conversávamos com outros viajantes alojados no nosso hostel. Ao terceiro copo, fomos convidados por um guia astrónomo local a fazer uma tour astronómica informal em redor da vila, assim do nada.


Desde logo entendemos que existiam duas possibilidades. Ou íamos em direcção a uma festa local, com direito a música ao ar livre e consumo de substâncias duvidosas, ou nos lançávamos na visita guiada às estrelas. Ficámo-nos pelo céu! Tínhamos de acordar cedíssimo e não queríamos voltar a “perder aviões”.

Uma visita guiada ao céu

A atmosfera nocturna desta região do planeta é das “mais puras”, com reduzida densidade de partículas e baixos níveis de poluição luminosa. Apesar de estarmos próximos do centro da vila, a esfera celestial era soberba. Lembro-me que a Lua estava brilhante, mas mesmo assim eram visíveis centenas de astros.

O guia astrónomo servia-se unicamente de um laser apontado ao céu e da sua intuição. Com uma mão no bolso e a outra em riste, falava como se estivéssemos de passagem pela sua própria casa.

Tudo lhe era familiar. As explicações eram rápidas e efusivas, saltava de estrela em estrela com facilidade, exaltava-se quando falava dos planetas visíveis. Assim que parámos na Ursa Maior, que ali estava de “cabeça para o ar” em relação ao que nós vemos no hemisfério Norte, encontrámos o caminho até à estrela polar no céu. Por fim, fitámos o nosso Zénite, a região exactamente acima do nosso ponto de observação. Estávamos a olhar para o centro da nossa esfera celestial.


Fig. 5 - A noite em Atacama (fotografia com exposição)


Esta não foi a minha primeira visita guiada astronómica, nem a primeira visita a uma região isolada, mas foi das mais surpreendentes, tanto pela atmosfera social como pela sensação libertadora de estar num deserto.



Um oásis para o espírito

A vila de San Pedro é como um ponto de luz na escuridão, iluminado pelas gargalhadas dos visitantes e pela descontração dos seus conterrâneos. Hoje, é um ponto de paragem obrigatório pelas viagens que partem dali em direcção às maravilhas do deserto.


A sua envolvência intocada e o seu distanciamento da azáfama metropolitana dá-nos a oportunidade de esquecer os desejos mundanos. Confere-nos serenidade e convida-nos à reflexão.


Ali, sentimo-nos desprendidos das nossas origens e somos livres para deixar a imaginação voar.


Imagens:


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