Space age fashion: uma breve história

Updated: Mar 7


No Verão de 1969, tornámos um sonho possível: um novo mundo havia sido conquistado.


A missão Apollo 11 levou o primeiro homem a pousar na Lua. Este foi um episódio celebrado em tempo real por cerca de 600 milhões de pessoas. Neste compasso de tempo, escreveram-se as primeiras páginas do que viria a ser a revolução espacial da cultura popular.


O tremendo avanço tecnológico da humanidade era, mais do que nunca, evidente. Celebrámos este triunfo da humanidade e transformámos a forma de nos representarmos no Mundo. Propusemos novos desafios. Que surpresas nos esperam? Qual é a próxima fronteira? Mas não só. As perguntas existencialistas também foram recuperadas. Entender quem somos, para onde vamos, e qual a nossa relação com o Universo tornou-se imperativo, naquele ano, não só para cientistas, mas também, e de formas inéditas, para o mundo da Moda.

A ousadia dos anos 60

Inspirados nos fatos dos astronautas, no brilho das estrelas, e na dúvida do desconhecido, de súbito, as passerelles foram invadidas por cores galácticas e formatos geométricos.


Andrè Courrèges é considerado o impulsionador da chamada 'space age fashion', sendo o primeiro a introduzir materiais em PVC em coleções de moda, acompanhados de formas geométricas e cores invulgares. O clássico vestido preto foi banhado a branco, "a cor da lua", e assim Courrèges estabeleceu o actual imaginário da "Moon Girl".

A sua coleção de 1964, uma das mais icónicas de sempre, é considerada futurista até aos dias de hoje, com cortes rectos e chapéus que lembram os capacetes astronautas.


A obscuridade do mistério juntou-se ao entusiasmo dos novos mundos possíveis. A beleza da emoção misturou-se com a exactidão matemática. O resultado foi extravagante, sobredimensionado, e multicolor.

Fig.1 - Capacetes e formas geométricas da coleção de André Courrèges em 1964.



Fig. 2 - À esquerda: coleção de Courrèges, em Kyoto, 1993. À Direita: a Sailor Moon, de Takeuchi, publicada em 1992.



Ainda nesta década de 60, outros estilistas deixaram-se levar pelo entusiasmo da era espacial: Emilio Pucci, com uma coleção super galáctica para assistentes de bordo, Rudi Gernreich, com a introdução do vinyl nas roupas, ou Pierre Cardin, com a sua coleção "Cosmocorps" de 1968. No mesmo ano, o filme 'Barbarella' apresenta várias criações astronáuticas de Paco Rabanne .



A incorporação de elementos astronáuticos

A febre das viagens espaciais foi esmorecendo, visto que dificilmente o programa espacial superaria em poucos anos o feito da primeira alunagem humana. Porém, o entusiasmo pelo espaço em si, pelas novas tecnologias e por um futuro robótico não se deixou abater. Tanto artistas americanos como europeus continuavam a incorporar elementos espaciais nas suas coleções. Nas décadas seguintes, a tendência da era espacial misturou-se com o retrofuturismo, que reflectia o imaginário da chegada do novo milénio, aliado a uma profunda nostalgia.



Fig. 3 - Em 1978, a Tecnica footwear lança "botas lunares", inspiradas nas criações de Giancarlo Zanatta.

Fig. 4 - Ralph Lauren lança um polo da NASA.

Fig. 5 - Estúdio de Alexander McQueen, diretor criativo da coleção "Y2K" da Givenchy em 1999.


O novo milénio

Desde que entrámos no novo milénio já se passaram 2 décadas, e nenhum outro 'boom' espacial existiu na história da moda que tenha a mínima comparação com a folia dos anos 60.

Assistimos, ainda assim, a algumas reinterpretações marcantes desta tendência. A popularização da ciência através de grandes ícones da astrofísica internacional como Stephen Hawking ou Brian Greene permitiram que o Universo voltasse a ser tema de conversa entre os media. O fundador da SpaceX Elon Musk assegura que uma viagem tripulada até Marte está para breve. Será?

Quando declararmos os seres humanos como uma espécie interplanetária, ou descobrirmos vida além Terra, talvez a era espacial na moda regresse à "passadeira vermelha" com mirabolantes inspirações.



Alguns momentos marcantes na 'space age' do século XXI:



1. Louis Vuitton Core Values · 2007

Conhecida por ser uma marca com malas de viagem icónicas, em 2007, a Louis Vuitton escolhe os astronautas Buzz Aldrin (Apollo 11), Sally Ride (primeira mulher americana no espaço) e Jim Lovell (Apollo 13) para representar a sua campanha de "valores essenciais", publicitando a mala "Ícaro" - na mitologia grega, Ícaro é um homem que voa.




2. Balenciaga inspirada em Star Wars · 2007

A par de algumas visíveis influências pela robótica dos filmes "O Exterminador Implacável" e "Tron", é também visível o retorno aos cortes direitos e aos tecidos típicos da space age, também retratados nos mais recentes filmes da saga Star Wars.



3. Padrões galácticos de Christopher Kane · 2011

Se há alguém a quem devemos a profusão de temas galácticos nos prints do início dos anos '10, é ao estilista Christopher Kane. Na sua coleção resort de 2011, maravilha-nos com imagens do telescópio Hubble em saias balão e t-shirts encorpadas.


4. O lançamento do foguetão CHANEL · 2017

Uma das criações mais emblemáticas de Karl Lagerfeld foi a sua homenagem ao homem no espaço, com a reprodução de um foguetão da NASA no habitual edifício dos principais desfiles da Chanel, o Grand Palais, em Paris.



5. A 'Space Age' de Maria Gambina · Portugal · 2021

A febre da 'space age' teve o seu pico nas décadas 60 e 70. Por esse motivo, esta corrente é frequentemente associada às restantes influências da época, como por exemplo, o ambiente afro-americano, as Olimpíadas de natação, o uso de pomposos chapéus e os folhos em camadas. É neste compasso de tempo que Maria Gambina parece encontrar fonte de inspiração para a sua mais recente coleção.

A próxima era espacial

Não sabemos que descobertas nos esperam, pelo que não podemos adivinhar de que forma a moda espacial irá evoluir. Não obstante, já existem novas ideias a ganhar forma.

Em 2020, surgiu um movimento que pretende levar a moda ao espaço, através do lançamento do primeiro desfile de moda na órbita da Terra. O projeto http://fashionshow.space/ reúne uma comunidade que acredita que os próximos grandes estilistas do mundo da moda terão de se adaptar à gravidade zero. Lê-se: "Em breve, o ser humano será uma espécie interplanetária e, como tal, o seu organismo exigirá outro tipo de indumentária".

Mais um espelho da sociedade.

Aquilo que vestimos é um reflexo da nossa personalidade. Somos a causa e o produto de qualquer manifestação artística do mundo da moda, e com elas, reflectimos, e avançamos.

A era espacial afectou profundamente a nossa forma de vestir no passado. Mais tarde ou mais cedo, a história irá repetir-se. O nosso armário de amanhã será o reflexo dos próximos mundos conquistados - ontem a Lua, amanhã Marte.


Imagens:



Fontes web:


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