Somos feitos de poeira de estrelas?

Updated: Jan 5


Os ingredientes essenciais à vida são formados em estrelas distantes.


Uma das descobertas mais maravilhosas da ciência relaciona-se com a espectroscopia. Ao observar o espectro electromagnético de qualquer objeto no Universo, estamos aptos a identificar os seus elementos químicos constituintes.

A descoberta deste espectro levou-nos a outras conclusões fantásticas. Quando apontámos os nossos telescópios para o céu e identificámos os constituintes do Sol, descobrimos que a maioria dos elementos que dão origem à vida não estão a ser fabricados no nosso "bairro". O ferro, que nos corre nas veias, o cálcio, que constitui os nossos ossos, ou o próprio carbono, dinamizador da química celular, não são elementos químicos actualmente a serem fabricados no sistema solar. Estes compostos provêm, literalmente, do além. Os elementos mais pesados têm origem em estrelas com formas e fases de vida muito diferentes das do Sol.



Formação de elementos no interior de estrelas

Antes de entendermos como é que estes elementos pesados vieram "cá parar", é importante entendermos alguns fenómenos que ocorrem no interior das estrelas, consoante a sua idade e composição.



A fábrica solar

O sol é uma estrela "jovem adulta", com tamanho, massa e constituintes bastante vulgares no Universo.

Como tal, no seu interior, ocorre um fenómeno de nucleossíntese estelar a que chamamos fusão nuclear: dois núcleos de hidrogénio encontram-se, unem-se, e dão origem a um novo elemento químico, o Hélio. Até esgotar todo o seu hidrogénio, o Sol vai continuar a fabricar Hélio por milhões de anos. Estes são, aliás, os dois elementos químicos mais abundantes do Universo.


Mas as condições físicas de nucleossíntese do Sol não são suficientemente extremas para gerar os restantes elementos da tabela periódica...



Explosões de estrelas supernovas

Os elementos mais pesados são fabricados em estrelas de maior massa, nossas vizinhas, onde a nucleossíntese ocorre a temperaturas e condições físicas violentas, em comparação com estrelas vulgares. São, por isso, elementos raríssimos no Universo!

Frequentemente, a criação de elementos raros ocorre durante a explosão de estrelas supernovas.

A morte de uma estrela é o berço de elementos essenciais à vida tal como a conhecemos.


Fig. 1 - Remanescente de supernova de Kepler - em 1604, os observadores do céu ocidental, como Johannes Kepler, identificaram uma luz brilhante no céu que durou semanas - a explosão de uma supernova na nossa galáxia. Créditos: NASA/ESA/JHU/R.Sankrit & W.Blair

Fig. 2 - Remanescente de supernova na constelação de Caranguejo, explosão ocorrida há cerca de 15000 anos. Créditos: NASA & J.J. Hester (Universidade do Arizona)

Fig. 3 - Remanescente de supernova Cassiopeia A; a mais recente do seu género encontrada até hoje na Via Láctea. Créditos: NASA/ ESA/ Hubble Heritage Team


Descoberta a origem de todos estes vitais elementos, tivemos de encontrar uma explicação para a abundância dos mesmos no sistema solar. A resposta mais amplamente aceite relaciona-se com a história de vida do nosso astro.



A odisseia do Sol pelo espaço

Fig. 4 - Trajectória do Sol na Via Láctea


Tenta imaginar o Sol como mais um viajante do cosmos. A nossa estrela já deu mais de 20 voltas à Via Láctea ao longo dos seus 4,6 mil milhões de anos de existência. No caminho, foi-se cruzando com variadíssimas estrelas - jovens, adultas, seniores, e até "cemitérios" de estrelas. As poeiras e gases deixados pelas suas semelhantes foram sendo atraídos, por força da gravidade. A certa altura, começou a ocorrer um fenómeno espectacular. Essa poeira de estrelas culminou em grandes agregados de matéria. Estes aglomerados, numa dança de encontros e desencontros, separações e contactos, colisões e uniões, deram origem aos vários objetos celestiais do nosso sistema solar e, por fim, à formação da Terra, dos oceanos, das plantas e dos humanos. Só esta épica viagem estelar explica a profusão de tantos elementos universalmente raro no nosso planeta.


Tudo o que somos foi, antes, algures, fabricado no cosmos. Os constituintes da nossa galáxia justificam a abundância de elementos raros na Terra. A matéria química que nos corre nas veias é igual à matéria de estrelas supernovas.

Lembra-te, porém, que nem tudo o que temos cá na Terra foi fabricado em estrelas no seu final de vida. Há outras fontes! Damos-te alguns exemplos.

  • Hidrogénio: formado no Big Bang

  • Oxigénio e Carbono: formado na generalidade das estrelas

  • Ferro: é mais comum ser formado na explosão de estrelas supernovas ou anãs brancas

  • Boro: fissão por raios cósmicos

  • Ouro: mais comum em colisões ocorridas nas estrelas de neutrões

  • Cobre: a origem não é totalmente conhecida


Não obstante, continua a ser verdade que uma boa parte do que tu és é material estelar, de segunda, terceira, ou "quinquagésima" geração... Ainda resta muito por estudar.



Lembras-te desta música do Moby?



Nunca te esqueças.

A nossa origem é a origem de todos os seres vivos, e a história de todos é uma única história.

A viagem do Sol pela galáxia até hoje representa uma odisseia de largos anos, em que um astro comum deu voltas e voltas pelas redondezas. No seu caminho, recolheu poeira, gases e até cinzas de outras estrelas, e desta mistura cósmica fez erguer o nosso complexo planeta, habitado por uma magnífica biodiversidade.


"Mesmo durante os teus momentos mais difíceis, lembra-te que somos todos feitos de poeira de estrelas." - Carl Sagan


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