A noite estrelada de Van Gogh


A Noite Estrelada de Van Gogh - Arte Cósmica - Cosmopolita

Van Gogh, o “génio louco”. Uma mente atormentada, capaz de produzir obras intemporais.


Apesar de incompreendido na sua época, Vincent Van Gogh é hoje uma referência icónica da arte pós-impressionista e uma fonte de inspiração para todas as gerações de observadores do céu nocturno.

Ele mesmo afirmou - “o céu está muito mais vivo e ricamente colorido durante a noite”. Não é verdade?

Neste artigo, vamos aprofundar as raízes da misteriosa obra "Starry Night".

Contexto da obra em vida

Estávamos em 1889, quando Van Gogh produzia os trabalhos mais importantes da sua carreira. Em Maio pintara os Lírios, e, no final desse ano, um dos seus famosos autorretratos. Foi a meio destes dois trabalhos, mais precisamente, em junho desse ano, que um acontecimento dramático levou-o a iniciar uma nova série artística.


Transtornado, ao saber que o seu amigo e pintor Gauguin ia abandonar a cidade, Van Gogh terá sofrido um surto psicótico que o levou a cortar a sua própria orelha esquerda. Pouco depois, dava entrada voluntária no asilo psiquiátrico Saint-Paul-de-Mausole. Incompreendido e angustiado, Van Gogh começa a imaginar o derradeiro consolo do ser humano numa vida após a morte.


“Seria tão simples e compensaria tanto as coisas terríveis da vida, que agora nos assombram e nos ferem, se a vida tivesse outro plano, invisível (...) onde o indivíduo chegaria depois de morrer." - Van Gogh

O interesse pelo anoitecer já era evidente desde o início da série nocturna. O primeiro quadro desta série foi o Terraço do Café à Noite, seguido da Noite Estrelada Sobre o Ródano. Apesar de notoriamente interligados, só a Noite Estrelada apresenta, pela primeira vez, em grande plano e como objeto de principal foco, o céu.


Terraço do Café à Noite - Van Gogh - Arte Cósmica - Cosmopolita

Fig. 1 - "Terraço do Café à Noite" por Vincent Van Gogh, o primeiro da série "Noite Estrelada". Actualmente exposto no Museu Kröller-Müller, nos Países Baixos.

A importância do cipreste

A Noite Estrelada é o pináculo da série nocturna. Neste quadro, Van Gogh transparece as emoções provocadas pela luta contra a doença mental e a constante sensação de isolamento. O céu ganha formas surrealistas, que ele próprio admite serem "exageradas no que toca à composição". A vila está pouco iluminada, o que confere destaque ao plano secundário. A pintura do cipreste não é acidental. Desenhada quase em forma de chama, o seu topo atinge quase o cimo do quadro, estabelecendo uma visível ponte entre a Terra e o céu. O cipreste simboliza a morte ou o luto em países mediterrânicos e é, por isso, o elemento chave para fazer a ligação entre as dores terrenas e as portas do paraíso, frequentemente associadas ao céu. A comparação para ele é simples:


Assim como apanhamos um comboio para viajar pela Terra, “também somos apanhados pela morte para alcançar uma estrela."

A Noite Estrelada teria um significado profundamente espiritual para Van Gogh. No meio do seu tormento, era nas estrelas que encontrava o seu conforto. "Da minha parte, não sei nada com certeza, mas a observação das estrelas faz-me sonhar", dizia.



Influências astronómicas da época

O telescópio foi popularizado por Galileo Galilei, em 1609. Nos 200 anos seguintes, foram descobertos inúmeros objetos estelares e entrámos no período da astronomia moderna. Década após década, foram feitos avistamentos inacreditáveis para a época: as grandes luas de Júpiter, os pequenos satélites de Saturno, e as supostas “nebulosas espirais”, às quais hoje chamamos galáxias.


Pensa-se que Van Gogh poderá ter-se cruzado com os trabalhos do astrónomo Camille Flammarion , que reproduziu as primeiras imagens de galáxias e nebulosas, estudadas também por William Parsons. Estes desenhos comprovam que o céu aumentado pelos telescópios da época mostravam estruturas espirais, representadas em grande esplendor no céu de Van Gogh.


Nebulosa espiral Camille - Van Gogh - Arte Cósmica - Cosmopolita

Fig. 2 - Desenho de uma nebulosa espiral, pelo astrónomo Camille Flammarion

A convergência do Iluminismo

Os avanços científicos da época coincidiram com a emergente corrente Iluminista, que celebrava, entre muitas virtudes, a liberdade individual. Esta ideia representava uma ameaça ao contemporâneo poder dogmático da Igreja Católica.

Foi um período também marcado pelas mentes brilhantes de Victor Hugo, escritor e crente na vida após a morte, e Júlio Verne, o inventor da ficção científica - dois artistas fortemente admirados por Vincent Van Gogh.



Fact check: os astros da Noite Estrelada

A astronomia dos dias de hoje permite-nos saber qual era o céu observado por Van Gogh a partir da janela do hospício. Podemos deduzir alguns factos:

  • O astrónomo Charles A. Whitney aponta que é provável a “estrela da manhã” - Vénus - estar representada no canto esquerdo ao lado do cipreste;

  • Apesar de não ser uma teoria comprovada, o historiador Boime aponta a presença da constelação de Carneiro no quadro;

  • A Lua em quarto crescente foi imaginada por Van Gogh (registos astronómicos revelam que a verdadeira Lua dessas noites seria minguante);

  • Os únicos elementos inteiramente não realistas da pintura são a povoação e as espirais no céu.

Efeitos retroactivos na cultura científica e popular

A Noite Estrelada teve tal impacto na cultura popular que, aos dias de hoje, serve de referência em variadíssimas áreas. Em 2005, a NASA fotografou fitoplâncton a partir do espaço, com uma aparência similar à noite de Van Gogh:

NASA fitoplâncton Van Gogh

Fig. 3 - Manchete "Van Gogh visto do espaço". Créditos: domínio público, USGS/NASA

Em 2004, saiu a manchete: "A Noite Estrelada está viva no universo profundo" - data em que o telescópio Hubble fotografou a V838 Monocerotis, uma explosão estelar que resultou nesta imagem, alegadamente parecida às espirais van goghianas:

V838 Monocerotis: Fenómeno no Espaço imita arte

Fig- 4 - Manchete "V838 Monocerotis: Fenómeno no Espaço imita arte"

Uma declaração de amor ao Universo

Em termos de estilo, Van Gogh considera a Noite Estrelada um falhanço, por ser uma “abstração”, e não uma representação inteiramente impressionista da realidade.

Porém, é neste eterno quadro que Van Gogh se torna um artista pioneiro: pela primeira vez na história moderna, é evidente a profunda ligação espiritual de um pintor ao Universo e suas manifestações. Van Gogh atribui aos astros o sentido da vida e admite a sua importância derradeira para o consolo das dores terrenas. É na observação do céu que Van Gogh encontra um refúgio dos seus tormentos, uma nova fonte de inspiração artística, e um consolo para as suas carências espirituais.

Neil de Grasse Tyson reforça que a Noite Estrelada é a primeira vez na história em que o céu é o elemento principal de um quadro. Assiste a esta interpretação emocionante da arte de Van Gogh:



Imagens:

  • Capa - Vincent van Gogh, Public domain, via Wikimedia Commons

  • Terraço do café à noite - Vincent van Gogh, Public domain, via Wikimedia Commons

  • Desenho de nebulosa - The Project Gutenberg EBook of Astronomy for Amateurs, by Camille Flammarion

  • Van Gogh visto do espaço - NASA (public domain)

Fontes:


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