A religião de Einstein


A religião de Einstein - cosmopolita

Um Deus inscrito na natureza. Uma mente fascinada pelo mistério.


É verdade que Einstein mencionava Deus com frequência, mas a falta de enquadramento das suas afirmações tem gerado muitas afirmações falsas em redor deste assunto. O Deus de Einstein, em adulto, está longe de ser parecido aos Deuses das religiões tradicionais. No seu ensaio de 1931, Einstein deixa claro que não concebe um Deus que recompensa e repreende as suas criaturas, ou que tenha uma vontade similar à do tipo que experimentamos nós mesmos. Mas vamos contar a história...


Influências do judaísmo

Apesar de Einstein ter ascendência judaica, os seus pais não eram assíduos praticantes e, como tal, não lhe incutiram essas práticas. Houve apenas um momento da juventude de Albert, que o próprio associa às perturbações da adolescência, em que se tornou bastante devoto e chegou a seguir algumas tradições religiosas como, por exemplo, a dieta sem carne suína.

Os pais de Albert seguiam uma única tradição religiosa à risca - o acolhimento de um judeu pobre para uma refeição semanal.

Este judeu acolhido era Max Talmud, 10 anos mais velho e estudante de Medicina. Nos tempos livres, partilhava com Albert alguns livros populares sobre ciências da natureza, entre eles alguns títulos do autor Aaron Bernstein, que geravam debates intensos entre os dois.



Um pensamento mais científico

É por esta altura que a visão religiosa de Einstein se altera para sempre. Einstein passa a rejeitar certas verdades absolutas da Bíblia, começando o que ele chama de “uma orgia do livre pensar”. Recusa-se a fazer o bar mitzvah (que é um costume tipo crisma para os judeus) e afirma que “muito me desagrada que ensinem aos meus filhos uma coisa que vai contra todo o pensamento científico”. Ficou também registado que, nesta fase, passou a encarar a astrologia como uma “catrefada” de superstições.


"Não há nada de divino na moral. Ela é uma questão puramente humana." - Albert Einstein

No final dos anos 30, Einstein descobre a Ética de Espinosa, um filósofo que rejeita a concepção teísta e antropomórfica de Deus. Baruch Espinosa nega a existência de uma finalidade cósmica, porque "todos os eventos da natureza ocorrem de acordo com leis imutáveis de causa e efeito”. Para este filósofo, Deus era infinito, eterno, indivisível, e detinha em si toda a substância do Universo. Einstein reconhece que Espinosa foi o primeiro a considerar a alma e o corpo como uma coisa só.


Estátua de Espinosa em Haia, Países Baixos

Fig. 1 - Estátua de Espinosa em Haia, Países Baixos.

Esta é a primeira vez que Einstein encontra uma visão totalmente determinista da vida e do cosmos. Tal interpretação do cosmos deixa-o deslumbrado, visto que Albert tinha uma obsessão muito forte: a de conseguir explicar todo o funcionamento do Universo através da ciência. E agora, pensava ele, até talvez encontrasse uma explicação para todas as acções humanas.


Em 1940, publica um artigo chamado “Ciência e Religião”, que transparece com clareza esta ideologia, e que causa um enorme abalo entre judeus e a comunidade científica pro-religião. Chega a ser alvo de críticas no The New York Times e a corresponder-se com vários rabinos incomodados.

Há uma conclusão muito interessante a que ele chega, relativa ao poder da ciência em descrever a totalidade do que é o mundo:

O conhecimento do que “é” não abre directamente portas para o que “deve ser”. Pode-se ter o mais claro e completo conhecimento do que “é” e, ainda assim, não se saber deduzir disso qual deve ser a meta das nossas aspirações humanas.

Ou seja, segundo Einstein, a ética e a moral do ser humano não pode ser estudada, determinada ou regida pela ciência. É nesta lacuna que Einstein encontra uma ligeira aceitação do papel das religiões tradicionais na história da civilização. Isto, porém, não significa que ele desse algum crédito pessoal a esse tipo de fé.

Como filho de judeus, emigrante e contemporâneo ao regime nazi, Einstein viveu momentos sociais conturbados, com sérias privações às liberdades de pensamento e de expressão. Portanto, nunca chegaremos a saber em detalhe que tipo de filtros ele terá aplicado aos artigos que publicou. Quais seriam as reais diferenças entre aquilo que Einstein deixou 'passar para fora', e aquilo que ele de facto sentia?

A "religiosidade cósmica"

Einstein gostava da expressão “religiosidade cósmica”, que, segundo ele, aparece no estado primitivo do pensamento e é despertada pela ciência, de mãos dadas à arte. Sendo que lhe parecia tremendamente difícil explicar a religiosidade cósmica a alguém que não a sentia, ainda assim conseguiu pô-la em palavras:


"Um espanto arrebatador, em harmonia com a lei natural, que revela uma inteligência de tal superioridade que, comparada a ela, todo o pensamento e ação sistemáticos dos seres humanos é um reflexo totalmente insignificante." - Albert Einstein

Para ele, o Universo é essencialmente misterioso. Um enigma passível de ser interpretado, prestes a ser compreendido. Mas "a mais bela experiência que podemos ter é a do mistério.", afirmava.


Repercussões

Concluímos que Einstein teve uma relação com a religião muito instável ao longo da vida. Alguns estudiosos acreditam que essa persistente busca por uma divindade credível teve, em última instância, um enorme impacto no seu trabalho. Não fossem os livros emprestados pelo amigo médico, e talvez Einstein nunca tivesse enveredado pelos caminhos da ciência. Não fosse o reforço da visão determinística do Universo por Espinosa, e talvez Einstein nunca tivesse acreditado ter meios para compreender as leis da física. Se assim (não) fosse, talvez ainda não se soubesse o que era a relatividade, e nós não teríamos sistemas GPS nem televisões.

E então, se entendemos que a religião teve influência na física de Einstein, quer dizer que a religião influenciou indiretamente toda a forma como a nossa sociedade interpreta o mundo, no sentido de um despertar científico.


Não percas este testemunho de um especialista na vida e obra de Einstein:



Imagens:

  • Capa - Ferdinand Schmutzer, Public domain, via Wikimedia Commons

  • Espinosa - I, LeonK, CC BY-SA 3.0 <http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/>, via Wikimedia Commons


Fontes:


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